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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

MISTÉRIO ENCARNAÇÃO - MISTÉRIO DE CORPOS EM MOVIMENTO

Por Tea Frigerio

Natal nos coloca no âmago do mistério da Encarnação.
A Divindade que se torna Humanidade.
Humanidade-Criança.
Este o Mistério!
Este o Natal
Esta a Realidade!


Mistério é linguagem. Linguagem que fala, podemos ouvir e ler.
Então vamos ouvir e ler.
Primeiro, porem vamos ser humanas, ser corpo, nos olhar, nos ouvir, nos cheirar, nos tocar...
Encarnação: a Palavra se faz carne!
Encarnação é assumir uma carne, assumir um corpo.
Fala de corpos que se gostam no amor se unem, se curtem dois numa carne só, e a vida acontece. Um corpo fica grávido, gestante, dá à luz. Criança, nova vida.
É movimento, encontro, acolhida, dar espaço, conviver, criar laços, deixar partir, não mais uma carne só, duas carnes, duas vidas.
Movimento de três corpos: homem-mulher-criança.
Natal é movimento. Movimento profundamente Divino-Humano. Movimento-caminho para-nos encontrar, para se colocar a caminho conosco.
Corpo divino-humano em movimento.
Corpos que se movimentam.
Zacarias o insucesso o deixou mudo. Volta, caminha para casa, caminha para Isabel. Outro caminhar, um encontro amoroso diferente. A que era estéril se torna fecunda. Uma criança em seu ventre, a  palavra na sua boca. Dá nome ao filho. Movimento que restitui a palavra ao esposo Zacarias.
Isabel e Zacarias, caminho que levou à circularidade.
Mulheres grávidas em movimento. Encontro de idades, Maria, Isabel, conversa, segredos, cumplicidade, ousadia, rebeldia, sororidade, e no ventre movimento, os filhos pulam de alegria anunciado o novo.
Novidade é perigosa!
O poder quer ser dono do caminho, do movimento, quer contar, quer controlar, quer tributar.
José, Maria, burrinho, lá vão, em caminho, em movimento a profecia a cumprir, Belém, a casa do pão, manjedoura não de pão, berço da criança-deus.
Luminosidade, anjos e anjas, estrelas, movimentos brilhosos convidam a se movimentar, a caminhar, seguir o pulsar das estrelas, das vozes que convidam:
Num casebre, uma mulher, com seu esposo, um recém-nascido precisando de tudo.
O recém-nascido abandonou tudo para vir ao nosso encontro, para nos encontrar, precisa de nós... Então vamos!   Então foram!
Então vamos...
... Como foram os Sábios caminhando com a estrela, aventurando, arriscando, desencontrando e encontrando.
... Peregrinado como peregrinou Simeão, que ao ver os três no Templo, os corpos fazendo o rito, reconheceu, este movimento não é do templo é da Casa, da manjedoura. Encontrei, meu peregrinar findou.
... Como Ana, profetiza de quem não ouvimos a voz. Se profeta é sem dúvida se movimentou, caminhou e anunciou: esta é a Boa Nova: Deus é Criança, Criança é Deus.
Deus-Criança, que mistério é este?
Deus deve ser forte, onipotente, todo-poderoso.
Criança é Deus, que mistério é este?
Criança é fragilidade, dependência, necessidade, pequenez, abandono, entrega, confiança.
Natal é tudo isso!
Deus é Criança, Criança é Deus movimento para nos encontrar.
Criança é Deus, Deus é Criança que se abandonou em confiança radical no ventre, nos braços, nos seios de Maria; confiança radical em José, ele cuidaria de tudo!
Confiança radical na humanidade, em nós!
Natal, Mistério, linguagem , escutamos , vemos?

O que esperamos a nos colocar em movimento, a caminho!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Natal: é tudo aquilo que não se espera. Natal é surpresa

Estava muito contente, tinha conseguido elaborar uma genealogia conforme o figurino, conforme mandava a tradição: de Abraão a Davi 14 gerações; de Davi ao Exílio 14 gerações; do Exílio a José 14 gerações. Todos homens famosos, todos homens honrados, todos homens da raça, pertencentes ao povo judeu.

Mateus estava muito feliz, ia confirmar para comunidade que Jesus era o Messias esperado, aquele em que se cumpriam todas as antigas promessas.
De mansinho alguém entrou, lá onde ele estava escrevendo, espiou por cima do ombro, leu e, começou a dizer: “Mateus isso não está certo! Onde já se viu geração, parto, nascimento sem mulher? Não te lembras, Farés e Zara saíram do ventre de Tamar, Booz nasceu de Raab, o avo de Davi, Obed, teve como mãe Rute e Salomão nasceu Daquela que era a mulher de Urias?” (Mt 1,1-16).
Buzinou e buzinou até que a genealogia perfeita, alias mais do que perfeita teve suas pequenas manchas. Quatro mulheres estrangeiras. Quatro mulheres de conduta duvidosa. Quatro mulheres que souberam ir à luta para alcançar seus direitos, conseguir o que era delas.
A perfeição se foi, mas isso fez sentir Maria menos sozinha. Ela que era mãe solteira se achou bem junto de estrangeiras e prostitutas. Ela que precisava de coragem, na força das antepassadas encontrou energias para ser a mãe deste filho sem pai.
Estava muito contente, tinha encontrado a solução, ia manda-la embora, não clamorosamente, mas na privacidade. Ele, José era homem honrado não ia assumir a paternidade do filho que seu não era.
E Maria? Sentia muito por ela. Gostava muito da moça: recatada, bonita e prendada. Mas como foi se meter numa situação semelhante? Como podia ter caído na lábia de alguém de fala mansa? Sentia muito, mas ele não, não ia criar filho de outro. Faria tudo em segredo, não queria prejudicar a moça. Era tudo o que ele podia fazer. Maria, depois que se virasse.
Tinha encontrado a solução ao problema, sossegou, tranqüilizou e depois de muitas noites insones, adormeceu. Dormiu o sono dos justos.
Alguém entrou lá onde ele estava dormindo, começou a soprar em seu ouvido: “De onde vem todo este medo? Deixa de ser medroso, José! Enfrenta o desafio! Acolhe na tua casa a mulher e seu filho” (Mt 1,18-15). E no sono a voz falou, falou e falou, até que José pensou que era uma "anja" enviada por Deus a lhe trazer um recado.
De manhã quando acordou foi buscar Maria e a trouxe para sua casa. Assegurou à moça que ia assumir o filho, ele mesmo tinha já escolhido o nome e este era Jesus. Depois destas palavras José deu-se conta que o antigo profeta Isaias já havia profetizado algo de semelhante. Aí ele se apercebeu que o menino que ia nascer seria o Emanuel.
Estavam muito contente, sua busca havia terminado, haviam enxergado no céu uma estrela. Estrela espreitada. Estrela esperada. Estrela da novidade. Nos livros da antiga sabedoria, nas tradições dos astrólogos, nas lendas contadas ao redor das fogueiras, nos olhos voltados para céu, tudo falava deste evento a acontecer: um sinal luminoso, um sinal brilhante no céu iria anunciar uma nova era, era de um novo rei, de um novo reinado. Os olhos perscrutando. As mentes buscando. Os corações ansiando a chegada do novo.
O sinal apareceu, uma estrela luminosa. Os sapientes magos se puseram a caminho. Queriam encontrar. Queriam homenagear. Queriam reverenciar. Queriam ser súditos deste novo rei, neste novo reinado.
Colocaram-se a caminho, deixando-se guiar pela estrela. E, quando a perderam de vista logo pensaram: um rei aonde podia nascer? E como a cidade próxima era Jerusalém eles pensaram por bem ir no Palácio do rei. Alvoraçado Herodes mandou chamar os sapientes, os escribas e estudiosos. Mandou acordar sacerdotes e generais queria saber do novo rei. O medo apertou suas entranhas: alguém desejava seu trono! Logo, queria saber quem era o conspirador, quem almejava roubar sua coroa. Ninguém sabia de nada!
Enquanto a corte inteira corria de cá pra lá, de cima pra baixo, ignaros e confiantes os magos foram dormir cansados de tanto andar. Sabiam de estar perto. Sentiam em seus corações que a busca estava no fim.
Alguém de mansinho, entrou lá onde dormiam e falou bem baixinho: “não sejam tão confiantes num rei amarrado ao poder! Sejam mais cuidadosos! Acordem e de mansinhos saiam deste palácio, saiam desta cidade, a estrela não desapareceu ela só se escondeu para não ser roubada pelos grandes e poderosos. Estrela só gosta de coisas bem pequeninas” (Mt 2,1-12).
Atordoados pelo sono. Espantados pelo vozerio. Espreitando a direita e esquerda saíram de mansinho do palácio em polvorosa. Ao sair da cidade viram de novo a estrela. Até a vila de Belém eles foram conduzidos. Num pequeno casebre a estrela posou. E, surpresa dos magos a estrela iluminou uma mulher do povo ninando seu bebê. Custaram acreditar que aquele era o novo rei, mas a voz soprou: “para ser novo rei, para ser novo reinado só podia acontecer na veia da humildade, só podia acontecer em quem não vale nada, só podia vir dos pobres. Tudo isso o mundo despreza mas, humildade, pobreza, pequenez é aquilo que Deus preza”.
Ao terminar de escrever Mateus ficou contente, tinha dado o seu recado: novidade é universalidade; novidade é acolhida; novidade é inesperada; novidade é abertura. Novidade é tudo aquilo que é diferente, tudo aquilo que desacomoda, tudo aquilo que rompe os trilhos, tudo aquilo que brilha e nos faz novos e novas.
Ao terminar de escrever Mateus pulou de alegria tinha conseguido dizer o que era para ele Natal.
Ao despertar do devaneio me enchi de esperança. Pensei em cada uma, em cada um de vocês.
Vieram a minha mente nomes que com seu agir desestruturam a tradição. Pequenas manchas no arrumado, mas que geram espaços onde os menos afortunados vencem a solidão, se encontram a vontade, regeneram suas forças.
Vieram a minha mente pessoas que souberam vencer o medo, que criaram coragem para escutar as “anjas” da vida e por sua vez viraram anjo e anja que anunciam a presença do Deus conosco agindo no cotidiano.
Vieram a minha mente rostos de mulheres e homens sábios, os olhos a espreitar, as mentes a perscrutar, os pés a buscar, o coração a esperar, refazendo a história, apostando no novo, acreditando no poder que enraíza no serviço e na partilha.

Ao memorar nomes, rostos, pessoas, falei para mim mesma é possível ainda dizer. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Viver o Advento como Comunidade


Por Tea Frigerio 

Isaias, João Batista, Maria iluminaram esta primeira semana do Advento, tempo de espera da vinda do Senhor. Deus se encarna, se faz humano porque quer nos encontrar. Deus nos surpreende com sua visita. Aproxima-se, anuncia, orienta, sopra em nossos ouvidos...



Vivemos o Advento no fim de ano, tempo cheio, agitado, um corre, corre de atividades para concluir, compras para fazer, organizar-se para as festas, natal, fim de ano... O Advento nos lança um desafio: seremos capazes de reservar tempos para o essencial? Um tempo místico para refletir e ir às raízes de nossa existência? Se não aceitarmos este desafio corremos o perigo de perder o controle da nossa vida, da nossa realidade mais profunda no anseio sôfrego da preparação das festividades e, ao final não perceber sua vinda, sua presença.
Reunir-nos em comunidade, em família, ousar nos dar um tempo de silencio pessoal, tranquilo, sereno, e poder refletir e sentir mais intensamente que é tempo de Deus, momento vivido entre nós, momento divino, retalho de tempo em que experimentamos a união profunda do divino com o humano.
As primeiras comunidades cristãs, as personagens bíblicas, as leituras, nos indicam o caminho para reconhecer os sinais que Deus deixou na história.
Sinais que frequentemente são somente sussurros na multiplicidade altissonante dos sons e das palavras que invadem nossa vida. Sinais que são sonhos, presença fugaz, que nem bruma, no assalto constante dos sonhos coloridos e fascinantes do consumismo. Sinais dos anjos e anjas silenciosas e leves, sem estardalhaço nos falam no cotidiano da vida.
Foi assim para Isaías que entreviu o Deus-conosco, nos pequenos, nas crianças, que se tornaram sinais de esperança e luzes acesas na escuridão, criada pela violência da lógica da guerra, das armas (Is 9,1-6).
Foi assim para João Batista, marcado desde o ventre materno da presença de anjos e anjas, mensageiras, canais de comunicação que religam o céu a terra. Precursor nascido na contra maré, viveu na contra maré, desafiando os grandes e afirmando: não sou eu... voz que prepara os caminhos daquele que há de vir... (João 1,19-30).
Sonhos e sopros, anjos e anjas chegam até Maria e José, os pastores, os estrangeiros sábios. Sonhos e sopros, anjos e anjas que desafiam o comodismo e exigem coragem para vislumbrar e pisar em caminhos novos, na certeza que caminhando se abrem caminhos (Mt 1 e 2).
Sinais de anjos, sonho, sopros que se por um lado pedem obediência a Deus, em contraparte pedem a desobediência à lógica social e religiosa da época.
Sinais, anjas, sonhos, sopros que interrogam: no barulho da nossa vida sabemos fazer silêncio para escutar o sopro de Deus nas anjas, anjos, que nos visitam? Sabemos reconhecer e acolher o sonho que Deus soprou no nosso sonho e no nosso coração? Com coragem o cultivamos no nosso cotidiano, na certeza que estamos fazendo história?
Isaías, João Batista, Maria souberam desobedecer as leis, as regras, as normas, aos costumes para obedecer a vida, escutar intensamente e obedecer a voz de Deus presente na sua história. Elas tiveram a coragem de enfrentar a vida e viver o sussurro da anja, o sonho de Deus e fizeram história. E nós?

sábado, 7 de dezembro de 2013

ILUMINAÇÃO DO ADVENTO – Parte III - Maria a mãe.

 Por Tea Frigerio

Maria, a mãe nos recorda que sem gravidez não ha nascimento! Advento, Natal tempos litúrgicos à sombra de gravidez, de nascimentos.
Os evangelhos da infância de Mateus e Lucas são paginas de mulheres e crianças. É a grande novidade: nas pequenas coisas, nos pequenos há o mistério da Boa Noticia.
Mulher e criança são o cotidiano, nos relembram uma realidade ausente da economia, da política, da religião: cueiros pra lavar, papas para preparar, joelhos machucados... a cotidianidade monótona, mas é ai que é presente o mistério que nos faz borbulhar de alegria (Lc 1,39-56).
Entrar na casa, saudar, abraçar. Duas mulheres se encontram: uma anciã outra jovem. A mesma experiência: esperam um filho em situação incomum. A anciã talvez precise de ajuda na casa a causa de sua gravidez de risco. A jovem de ser acolhida, de conselhos, pois espera um filho e não é casada, teve que sair às pressas de sua aldeia. O encontro não precisa de palavras para expressar, as duvidas, temores, angústia, medo, espera, esperança. A anciã acolhe, a jovem serve. Na casa o cotidiano da vida, o inesperado da vida. É na cotidianidade da vida, que acontece o novo.
Bendita mãe, bendito filho. Bendizer, bem-dizer, dizer-o-bem. Advento, se colocar a caminho para bem-dizer para as pessoas, para sociedade, para o universo.
Maria è bendita porque carrega o fruto bendito: dirá e fará o bem em sua vida. Dizer-o-bem da vida é dar à vida um sentido novo, novo rumo.  Às vezes dizemos que vivemos um tempo maldito, in um mundo maldito. Mal-dizer é dizer e fazer o mal. Uma vida que somente tem a dizer o mal, perdeu o sentido, o rumo, a direção… Maria carrega o fruto bendito porque Jesus reorienta a vida, lhes dá um novo sentido, uma nova direção.
Bendita, , bendito: a boa noticia é presente na mulher, na criança. A mulher oferece seu ventre para engravidar a vida, o cumprimento das promessas, a novidade de vida.
Bendita a casa que se faz ventre e engravida a novidade da vida. Bendita aquela que acreditou! Benditas, benditos aqueles e aquelas que acreditam que o impossível é possível!
Maria è bem-aventurada porque acreditou. Crer é diferente de ter fé. Fé fala de ideias, doutrinas, dogmas. Crer é um verbo é um agir. Crer que as mudanças estão acontecendo no cotidiano, na escolha dos estilos de vida que podem transformar esta vida maldita em via bendita.
Frente à realidade nos sentimos imponente. Sentimo-nos pequenas, inúteis, assim como Maria e Isabel deviam se sentir. Acreditaram que, delas mulheres a quem a sociedade não dava valor, em seus filhos ainda para nascer que as promessas do Senhor teriam se cumprido. Tiveram olhos para reconhecer na banalidade e monotonia cotidiana, em sua situação inusitada, nos seus pequenos gestos de mulheres a presença do Senhor que transformava sua vida, a vida do seu povo, a historia.

Na companhia destas três personagens (profeta Isaías, precursor João Batista, Maria a mãe), vamos viver o tempo de advento, mas vamos vive-lo também através de um sinal a Coroa do Advento, tradição nascida no norte da Europa e que hoje se difundiu em outras partes do mundo. Ela é formada por um circulo de galhos do pinheiro, decorado com fitas vermelhas e símbolos natalinos onde estão inseridas quatro velas.


Cada símbolo nos fala:

O circulo fala da circularidade da vida, do universo, da história, das relações na comunidade.
O verde recorda o renovar-se constante da vida
As fitas vermelhas o amor e a disponibilidade a recriar as relações humanas
As velas, a luz, Jesus luz que ilumina a realidade humana.