Mostrando postagens com marcador Mulher na Bíblia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mulher na Bíblia. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de junho de 2014

Feminina ou feminista?

Por Tea Frigerio



Esclarecimento: 


  • Não feminina. Pressupõe o eterno feminino. O ideal feminino não existe foi criado pelo patriarcado. Baseia-se na construção social de gênero que elaborou papeis masculinos e femininos, características, atitudes que ao longo dos séculos o mundo patriarcal-machista determinou para a mulher e as introjetou para torna-las absolutas.
  • Sim feminista. Assumir a condição de mulher numa humanidade sexuada. Assumir a realidade da mulher numa estrutura social que determinou para mulher um papel dependente, subordinado e que ocultou na historia seu protagonismo, sua presença, silenciando sua voz.
  • Não uma leitura a partir de... na ótica de... pois isso muitas vezes para no vitimíssimo ou constatando, quando olha a umas mulher como uma heroínas. Leitura assumindo a situação da mulher empobrecida da América Latina.
  • Feminista, porque como mulher ler, interpretar, pronunciar sua palavra especifica sobre Deu*s, sobre a Palavra de Deu*s. Expressar sua palavra libertando-a e libertando-se do que os homens, os teólogos consideram “cientifico”.
  • A palavra ‘feminismo’ pode criar conflito e nem sempre é aceita. Não ter medo e receio disso. O conflito já existe é em ato desde... Vale a pena salientar que não existe um único feminismo, existem variadas formas de feminismo.

1.      Hermenêutica


  • A hermenêutica é a ciência da interpretação de textos; usada também para o estudo e leitura do texto bíblico. Salientamos alguns aspectos para podermos realizar uma hermenêutica com espirito livre.
  •  Ir ao texto com as perguntas que animam a vida da mulher hoje. 
  • Superar os condicionamentos do patriarcalismo, entre eles a ideia que o ‘texto bíblico é sagrado e por isso é intocável’. O texto bíblico não é neutro, o contexto em que foi escrito e depois interpretado foi e é marcado pelo patriarcado.
  • Respeitar a autonomia do texto. O respeito exige que a partir do escrito se possa alcançar a memoria, presença, silenciamento, manipulação e a voz da mulher na historia e no cotidiano subjacente ao texto.
  • Alimentar constantemente a suspeita ideológica.

2.      Suspeita ideológica

Aceitando o pressuposto que o texto bíblico não é neutro, mas tem a marca da sociedade patriarcal em que foi escrito e a seguir interpretado, então a suspeita ideológica é legitima. Popularmente: ir ao texto com uma pulga atrás da orelha que nos incomoda!

  • Interrogar-se o que está por trás de certos textos? (Eclo 26,1-18; Prov 31,10-31; Lc 8,1-3; você sem duvida tem outros).
  •  A ideologização de umas mulheres (Sara; Rebeca; Debora; Ester e não Vasti; Judite...
  • Por que apresenta-las como inimigas, antagônicas? (Sara – Agar; Lia – Raquel; Vasti – Ester; Marta –Maria; e outras...)
  •  Textos que são esquecidos, nunca são lidos (Tamar, 2Sm 13)
  • Textos que silenciam, omitem, ocultam (Ex 15,1-18; Nm 12,1-10; 1Cor 15,1ss parece não conhecer a tradição dos sinóticos sobre as mulheres testemunhas da ressurreição).
  • A pratica na ICAR de ler as mulheres do 1Testamento em função de Maria, apresentada como a mulher do ‘sim’, do silencio.
  • Valorizar algumas mulheres tornando-as ‘heroínas’ e interpretá-las a partir do homem e até masculinizá-las (ex Debora, Jael). 

sábado, 19 de abril de 2014

RESSURREIÇÃO

Texto de Tea Frigério

Maria de Mágadala e Maria, mãe de Tiago, Salomé de madrugada ao nascer do sol foram...
Assim a comunidade faz memória, memória que chega até nós. Não conseguiram esperar o raiar do dia, precisaram ir. Ao ir vão carregadas de perguntas: a pedra pesada quem a rolará... quem é o jovem... ressuscitou não está aqui... ide... vos precede na Galiléia... saíram, fugiram do tumulo... tremor e estupor...
Seus corpos estão habitados por interrogações, perguntas. A narração as guarda no tempo e o mistério chega até nós.
As mesmas interrogações e perguntas, o estupor e o mistério chegam até nós, nos engravidam e a pergunta nos habita: A Ressurreição aconteceu?
É pergunta que habita muitas pessoas: A Ressurreição aconteceu? Como aconteceu?



A Ressurreição aconteceu!
A Ressurreição devia acontecer!
Foi gestada a longo tempo, desde que Jesus saiu de Nazaré e começou a travar relações. Relações que fascinaram e apontaram a superação de dogmas, regras, preconceitos raciais e étnicas. Relações de uma mesa inclusiva onde podiam sentar mulheres e homens, pessoas com estigmas, diferentes fugindo das regras sociais e patriarcais. Relações que fascinaram e fizeram sair de casa, tornaram corajosas e pessoas saíram revelando-se, ousaram caminhos inusitados.
Relações gestando o novo...
O aroma do perfume anunciou sua chegada. Maria entrou na casa, os cabelos soltos, e o perfume entrou com ela. Aproximou-se de Jesus, rompeu o vaso, derramou o balsamo nos pés de Jesus, os friccionou com seus cabelos. Deixai-a fez por mim, antecipou.
Jesus aprendeu e na ceia lavou os pés, vós também... Vos reconhecerão...
Relações gestando o novo...
Maria de Mágdala, Maria, Marta, Susana, Joana, Salomé e as mulheres que o haviam seguido desde a Galiléia, servindo ao Reino, subiram com Jesus até Jerusalém. Subiram até o Calvário e à sombra amedrontadora da cruz elas ensaiam o ministério da circularidade, com a presença de João o rosto feminino do discipulado.
Relações gestando o novo...
As mulheres que vieram da Galiléia ficaram observando...
E veio José de Arimatéia homem bom e justo, esperava o Reino, pediu o corpo... E a circularidade se refaz na solidariedade, nos gestos que cuidam do corpo amado... Descer da cruz, acolher nos braços, massagear com aromas e perfumes lavando as feridas, limpando a sujeira, devolvendo a dignidade ao corpo violentado, assassinado. Tocar, acarinhar o corpo amado, envolvê-lo em lençóis, depô-lo no sepulcro, na terra, ventre da terra.
Relações gestando o novo...
O ventre da terra acolhe o corpo de Jesus de Nazaré, o corpo do homem cujas relações tinham um “que” nunca visto!
Maria de Mágdala liberta dos sete demônios patriarcais. Marta amada por Jesus, primeira a acreditar que ele era a Vida. Maria a mulher do perfume, aroma que é profecia.
Lázaro, João, José de Arimatéia vislumbraram com ele um jeito novo de viver a masculinidade.
As mulheres desabrochando em nova feminilidade.
Jeitos novos de ser homem, de ser mulher, humanidade nova, novo jeito de tecer relações.
Este homem não podia morrer e ficar na morte, anulado por uma pedra que torna o ventre da terra tumulo?
O que seria da Vida que haviam vislumbrado?
O que seria da utopia de céu novo e terra nova?
O que seria?!
O ventre da terra se abriu para acolher o corpo do homem que por amor à vida proclamou “Eu dou a minha vida, ninguém a tira. Dou-a e retomo-a”. Amor fiel, amor radical. Amor que assume dar sua vida para denunciar os sistemas civis e religiosos que se mantém no poder eliminando a vida, deturpando a vida, matando a vida.
           
Uma pedra sela o ventre da terra, útero que acolhe o corpo do homem que havia ousado ensaiar novas relações. Relações inclusivas. Relações circulares. Relações que colocam em circulo os bens, o poder, os afetos, os corpos. Relações inclusivas ao redor da mesa que rompe os preconceitos, os paradigmas, os dogmas, as falsidades da uma sociedade e religião patriarcal.
O ventre da terra se faz útero, a gravidez que havia começado em encontros amorosos sobre a terra tem que dar à luz.
As mulheres sentam observando, esperando, amando.
As mulheres voltam para casa preparar aromas e perfumes.
As mulheres inquietas de madrugada, vencendo o medo, vão... Vão pedir ao ventre da terra que devolva o corpo amado, o corpo de Jesus de Nazaré, o devolvam Ressuscitado.
Vocês pensam que estou devaneando, que enlouqueci. Sim louca de amor como Maria de Mágdala. Louca de amor em busca do Amado.
Louca de amor como as mulheres que de tão surpreendidas são tomadas de estupor e o estupor as faz tremer. Tremer de medo ou pequena flâmula de esperança.
Louca de amor com elas e que não permitem que a morte vença, a Vida é vitoriosa.
Ressuscitou! Sim fizeram acontecer a Ressurreição! 
Ressuscitou! Estas mulheres e homens fizeram rolar a pedra, gritaram: Jesus de Nazaré vem para fora. Ele ouviu o grito e veio para fora: O Ressuscitado!
A terra pariu, deu à luz: O Ressuscitado!
Elas e Eles foram anunciar: Está vivo nas relações recriadas.
Ressurreição em nossa vida reflete na parábola da borboleta. O casulo é útero, nos fala de escuridão, silencio, dor, morte, espera...
Casulo pede a espera do tempo propicio.
Casulo nos convida a contemplar o lento sair da borboleta, seu abrir de asas, o ensaio e enfim a leveza de seu voo que embeleza a criação.
Borboleta é contemplar a Ressurreição acontecendo no universo, na humanidade, em nossa vida. É contemplar nosso crer, nossa própria vida fazendo acontecer a Ressurreição.



Mistério!
Mistério pede contemplação!
Mistério desvela a Ressurreição!
Mistério convida a fazer acontecer a Ressurreição!
Mistério – Ressurreição: Mulher e Homem relações recriadas!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

MULHERES DA CASA TRAPICHE CELEBRAM A PÁSCOA (2014)

Praticando a terapia do cuidado, refletindo a poesia de Cora Coralina "MULHERES DA VIDA", celebrando a Páscoa deixando para trás nossos medos e fragilidades e partilhando o pão e o vinho!

Texto e Fotográfias de Dilma Leão



Poesia de Cora Coralina
Mulher da Vida


Mulher da Vida, minha Irmã.
De todos os tempos. De todos os povos. De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos, apelidos e apodos:
Mulher da zona, Mulher da rua, Mulher perdida, Mulher à-toa.
Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas. Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis. Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas. Escorchadas. Discriminadas.
Nenhum direito lhes assiste. Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos, pisadas, maltratadas e renascidas.
Flor sombria, sementeira espinhal gerada nos viveiros da miséria,
da pobreza e do abandono, enraizada em todos os quadrantes da Terra.
Um dia, numa cidade longínqua, essa mulher corria perseguida pelos homens que a tinham maculado.
Aflita, ouvindo o tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.
A Justiça estendeu sua destra poderosa e lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra”.
As pedras caíram e os cobradores deram s costas.
O Justo falou então a palavra de equidade:
Ninguém te condenou, mulher... nem eu te condeno”.
A Justiça pesou a falta pelo peso do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada. Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém as urgências brutais do homem
para que na sociedade possam coexistir a inocência, a castidade e a virtude.
Na fragilidade de sua carne maculada esbarra a exigência impiedosa do macho.
Sem cobertura de leis e sem proteção legal, ela atravessa a vida,
ultrajada e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa nem lhe reconhece direitos nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão, a levante, e diga: minha companheira.
Mulher da Vida, minha irmã.
No fim dos tempos. No dia da Grande Justiça do Grande Juiz.
Serás remida e lavada de toda condenação.
E o juiz da Grande Justiça a vestirá de branco em novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida humilhada e sacrificada para que a Família Humana possa subsistir sempre, estrutura sólida e indestrutível da sociedade,
de todos os povos, de todos os tempos.
Mulher da Vida, minha irmã.
Declarou-lhe Jesus:
“Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no Reino de Deus”. 

(Evangelho de São Mateus 21,31)



segunda-feira, 31 de março de 2014

CAMINHANDO PARA PASCOA - TEMPO DE RECRIAR, DE RENASCER

Por Tea Frigério

Massagear... acarinhar... fortalecer... curar... São gestos que nossos corpos necessitam e tem um tempo em que parece precisarmos mais. São gestos que nos colocam em sintonia com as mulheres que tinham vindo da Galiléia com Jesus, haviam seguido José; observaram o túmulo e como o corpo de Jesus fora ali depositado. Voltaram e prepararam aromas e perfumes (Lc 23,55-56)O corpo de Jesus, o corpo querido do homem que se relacionou com elas com um “que”, único, especial. Não um cadáver, como o era para Pilatos 
(Mc 15,45a). 

Há etapas na vida onde parece que o tempo se encurta, ansiamos por sentimentos de solidariedade. Solidariedade tem o colorido da compaixão. Solidariedade é viverem juntas as idênticas paixões. Lermos a história superando a desilusão, acalentando a esperança.O tempo em que vivemos é tempo de transição. Como era tempo de transição aquele que a comunidade viveu e guardou a memória no corpo do texto bíblico que escolhemos como inspiração.A narração nos faz perceber que é um tempo vivido à sombra da cruz. É tempo vivido na dor. O acontecimento é narrado com poucas palavras, dele se fala com sobriedade. A narração guarda a memória do viver à sombra da cruz. Memória de medo e esperança, de solidão e amores, de desilusão e anseio. Memória de um texto escrito com poucas palavras, porque a dor exige silêncio, talvez, marcado pela vergonha, pois há um só homem presente e os outros... Texto rico de perguntas, sentimentos, intuições e provocações. A dor alonga o tempo, pede silêncio porque o “mestre dorme”.
Tempo chocante, de escândalo, mas tempo importante, pois é o único que puderam viver como momento presente. Tempo de transição que prepara a alegria, a realização do sonho: provoca e antecipa a ressurreição.Neste tempo, as mulheres são protagonistas. Estão presente, permanecem. Permanecer é verbo que as torna protagonista, as torna ponte entre a morte e a ressurreição. As mulheres estão presentes. Estando presente tornam-se sinais de continuidade.O permanecer as constitui em sinal de continuidade, memória, tradição, magistério e por isso autoridade. Testemunham porque viram. João a sombra feminina do discipulado nos fala disso no seu evangelho: é testemunha quem vê: “Mestre onde moras? Vinde e vede” (João 1,38-39). Estar presente, ver para testemunhar, como Maria Madalena, apóstola apostolorum, testemunhou porque viu, porque estava presente.
Tempo de transição, tempo de muito silencio: voltam para casa. “E, no sábado, observaram o repouso prescrito.” (Lc 23,56b). Sábado, dia festivo, dia sem festa, sem alegria, pela ausência da pessoa amada. 
Tempo de solidão: saudade, a pessoa amada não está mais presente. As mulheres vencem a tentação de anular este tempo, preparando aromas e perfumes. Retomando seus gestos como a querer continuar, não parar a caminhada. Superam a tentação de fugir, preparando aromas e perfumes. E, no preparo, as recordações, recriam os gestos, renovam as palavras, inventam novos toques, que tornam presente a pessoa amada, sua missão e a fazem ressuscitar.
Tempo de profundo mistério: mistério que não nos desloca nas nuvens, mas nos enraíza na terra, na vida. Estes eventos nos fazem sentir o peso e a fadiga de sermos humanas. Sentimos em profundidade a humanidade: os sentidos estão alerta, presentes, vigilantes, tudo recorda, toca na ferida da ausência. Mas, o afeto faz permanecer. Somente o amor faz permanecer, faz perceber a importância de viver intensamente, de não ter medo da sensibilidade que faz aflorar os sentimentos. Não ter medo da ausência, do silêncio, da dor. No ventre da terra, um corpo, o corpo de Jesus, nossos corpos preparam a ressurreição.
É o feminino que faz tradição: a sensibilidade das mulheres as mantém acordadas e presentes, as ajuda a vencer a vontade de fugir como fugiram os discípulos. As mulheres permaneceram e reinventam os gestos que antecipam a ressurreição.
Tempo de solidariedade ao redor da cruz, abraçadas ao redor de ... É assim que nasce a circularidade.
Voltar para casa e preparar perfumes... perfume para o amado... perfume para si próprias. A dor que perpassa o corpo alma das mulheres precisava de alento. Ao preparar o perfume para ungir o amado, também seus corpos foram ungidos. Unção que serviu para acalentar sua dor e saudade. Unção para curar sua tristeza e medo. São mulheres criando relações de cura entre si mesmo. 
É tempo de transição, é tempo de silêncio, é tempo de solidão, por isso tempo de mistério, que prepara o novo modo de ser, de viver a missão. É tempo de mistério e de ministério. Ministério exercido no cotidiano de mulheres, frágeis, mas criativa que conseguem preparar perfumes, capazes de superar e suportar a aparente fragilidade. São gestos do cotidiano que anunciam ressurreição.  É tempo de permanecer para ser ponte, ser tradição, magistério e autoridade.
Como ser isso?
Realizando gestos antigos que enxertados na vida se tornam novos. Re-inventar, re-criar gestos para o tempo novo, para a nova etapa de vida. As relações serão recriadas, pois a relação passa através dos gestos, dos símbolos: simbologia verbal, gestual, sacramental. É celebrar.
Celebrar, verbo ético, verbo que revela uma maneira de estar na história, de viver as situações, de se relacionar com as pessoas, de ler os contextos. Nossa formação nos leva a dividir: tempos de morte, de guerra, de violência e tempos de vida; tempos festivos e cotidianos; tempos produtivos e tempos improdutivos; juventude, maturidade, velhice...
Voltar de madrugada, num gesto que parece loucura, pois a pedra é grande e não sabem como removê-la, mas assim mesmo, no escuro vencendo o medo elas vão. O amor guia seu agir, quer rever, tocar de novo uma última vez, realizar os gestos, a unção que o sábado, o antigo havia apressado. 
O tempo moderno não nos educa, tudo acontece rapidamente, perdemos a capacidade de gastar tempo em preparar. Hoje temos dificuldade a enfrentar os monstros do neoliberalismo, mas, sobretudo temos dificuldade a viver lentamente, pois sentimos a urgência de pisar no acelerador.
No mundo do ‘mistério’, da ‘ressurreição’ nada acontece rapidamente, de improviso, tudo é preparado. A Divina Sabedoria continua perdendo tempo preparando a humanidade, a criação, o seu encontro conosco. Continua preparando a ressurreição: não existe ressurreição sem preparação. A festa é celebrada depois de longos preparativos que duram mais do que a própria festa.
As discípulas ao ir de madrugada para o sepulcro vão carregadas de perguntas: Quem rolará a pedra? O sepulcro está vazio? Onde levaram o corpo? Onde buscar?
De madrugada, também nós, vamos grávidas de perguntas. As respostas virão do “nosso estar”.
Foram de madrugada ao sepulcro e o que viram? O sepulcro vazio, os panos dobrados, figuras estranhas que chamaram de anjos: viram, encontraram e, a realidade era mistério. Ver o que se vê sem fantasias, pois a vida já é mistério.
Mistério a ser cantado, vivido, ensaiado... Então sentimo-nos renovar, ressuscitar e, a juventude borbulhar em nós, por isso cantamos, pois a juventude não é uma idade cronológica, mas um modo de estar na vida:

Dizem que o sol deixou de brilhar
Que as flores mais belas não perfumam mais
Que os jovens (mulheres) teriam deixado de amar
De crer na esperança de poder mudar
Que as lutas os sonho o vento espalhou
Que envelheceram as forças do amor.
Se fosse assim me digam vocês
De quem é o rosto que ainda sorri
De quem é o grito de que nos faz tremer
Defendendo a vida e o modo de ser?
De quem são os passos marcados no chão
E o lindo compasso de um só coração?
Enquanto existir um raio de luz
E uma esperança que a todos conduz
Persiste a certeza plantada no chão
Ternura e beleza não acabarão
Pois a juventude (mulher) que sabe guardar
Do amor e da vida não vai descuidar.
O rosto de Deus é jovem (mulher) também
E o sonho mais lindo é ele quem tem
Deus não envelhece tampouco morreu
Continua vivo no povo que é seu
Se a juventude (mulher) viesse faltar
O rosto de Deus iria mudar.
(Jorge Trevisol)
                                                     Tea Frigerio

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

DISCIPULADO DE MULHERES - SAMARITANA

Por Tea Frigerio

Ir, ver, estar, conhecer, seguir, amar, testemunhar, anunciar, são os verbos do discipulado.
Nem todo ir é andar de discípulo, de discípula.



A mulher ia todo dia ao poço. Um ir obrigado. Um ir cotidiano. Um ir trabalho. Era sua tarefa cotidiana: dura, escaldante, pesada, monótona.
Aquele dia, como todo dia foi com seu cântaro atingir água ao poço. De longe avistou um homem, um viajante. Receosa se aproximou: ignorar, estar alerta para o que der e vier. O desconhecido podia se tornar um perigo, uma ameaça?
O passo firme, o coração vacilando e ao chegar ao poço um pedido a surpreendeu: “dá-me de beber” (Jo 4,7). O homem era judeu e bem atrevido lhe dirigia a palavra em publico e pedia água. A água da hospitalidade a uma mulher samaritana!

Hospitalidade é sagrada. Ao viajante não se pode negar água, mas pode-se questionar: “como tu pede água a uma mulher, a uma samaritana?” (Jo 4,9).
No pedido, na interrogação inicia-se a conversa. Conversa que começa a partir do trabalho, passa pela vida pessoal, entra na religião. Conversa que ora corre paralela, ora é desencontro, até se tornar encontro, parceria.

Água, água viva, dom, derramar do Espírito, memória bíblica, espiritual a fala de Jesus.   Ao falar de água a mulher tem um objetivo claro: tornar menos pesado e entediado seu trabalho. Quem sabe o judeu tenha um segredo para não vir mais até a nascente e e mesmo assim ter abundância de água. Falas que correm paralelas sem se encontrar.
E teu marido pergunta Jesus? É vida pessoal! Ao falar de sua vida pessoal a samaritana fecha a conversa: no íntimo da pessoa pode entrar somente quem tem entrada franca. O homem, o judeu, o inimigo atávico do seu povo, considerada raça mestiça e heterodoxa, não tem permissão de entrar. Desencontro, embora as palavras acordem uma memória antiga a da origem do seu povo.
Então a mulher dá uma virada, ela toma a palavra, puxa a conversa e o assunto é religião. Religião era justamente um dos motivos da inimizade: ”Onde adorar no Garizim ou em Jerusalém?” “Nem no Garizim nem em Jerusalém, em espírito e verdade” (Jo 4,19-21.23).
A mulher entende, pois sua experiência fala de corpo habitado na gestação. E, se o corpo da mulher pode ser habitado, o corpo humano pode ser habitação de Deus.

Judeu, homem, profeta, enviado, palavras de encontro, palavras de diálogo, palavras de revelação. “És quem esperamos? Sou Eu que falo contigo” (Jo 4,25-26). À pergunta uma resposta, revelação: Sou eu.
O andar se torna correr. O cântaro é esquecido. Não é água que oferece! Oferece um anuncio, um testemunho: “Venham ver encontrei, ele me disse tudo o que fiz!” (Jo 4,39).
Na sua voz ecoam as palavras de Jesus: “Mestre onde moras? Venha ver!” (Jo 1,39).
Na corrente do discipulado, um novo anel. No anuncio a parceria. Mulher, Samaritana, discípula, evangelizadora.

Ver, andar, conversar, pedir, questionar, dialogar, abrir-se ao Outro, à Outra, o nascer da parceria do anuncio, da parceria do Reino.

Poço: memória matriarcal
Poço: trabalho duro
Poço: encontro desafiante
Poço: revelação surpreendente
Poço: anuncio novidade
Poço: testemunho parceria
Poço: memória da mulher Samaritana.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

DISCIPULADO DE MULHERES: MARIA A MÃE DE JESUS

Por Tea Frigerio

O ano de 2014 seja para nós luminosos pela presença da Divina Ruah que com sua luz e energia vital nos acompanhe e guie em nosso caminhar.
Discipulado de mulheres é uma chave de leitura do Evangelho da Comunidade dos e das discípulas amadas.
Desejo que essas reflexões provoquem outras e nos levem para caminho ousados, mas sobretudo comprometidos com a vida.



O Evangelho de João se focaliza na figura do discipulado. Discipulado que fala de seguimento, que fala de testemunho.
Seguimento, testemunho apontam para um encontro, uma relação pessoal. Encontro, relação que levam a aderir a uma pessoa: Jesus de Nazaré.
Os dois discípulos ao ouvir João Batista apontar Jesus como Cordeiro de Deus, ao encontrá-lo perguntam “Mestre onde moras?” e Jesus responde para eles “vinde e vedes!” João 1,35-39.
Ir, ver, conhecer, amar, seguir, testemunhar: são os verbos, as ações, o processo que gera o discípulo, a discípula amada. A experiência, de ir e ver, foram em tal grado intensa que a memória chega até nós e influencia nossa relação com Jesus, o Mestre amado.
Nós, as discípulas e discípulos de Jesus, hoje, somos anéis de longa corrente de testemunhas: André e João, Pedro e Felipe, Natanael, Samaritana, Marta e Maria, Lázaro, Maria Madalena... Com eles, com elas queremos apreender a ser discípulas, discípulos amados.
           
Ao fazer a memória desses nossos antepassados, dessas nossas antepassadas não podemos começar se não por uma, aquela que foi a primeira discípula: Maria a Mãe de Jesus.
A comunidade de João a lembra em dois acontecimentos: nas Bodas de Canaã (João 2,1-12), aos pés da cruz (João 19,25-27).

Nas Bodas de Canaã, Maria estava presente com seu filho. Ao perceber a falta de vinho provoca a antecipação da hora de Jesus. Faz isso pronunciando uma frase: “Fazei tudo aquilo que ele vos disser”. São palavras de aliança, são palavras que fundamentam o seguimento de Jesus.
Aliança firmada no Monte Sinai geradora do Povo de Deus (Ex.19,6-8). Aliança a ser firmada aqui na festa de casamento que gera o novo Povo de Deus: a Comunidade.
Seguimento que pede olhar atento às necessidades. Seguimento que convida a escutar a voz do Mestre. Seguimento que é atenção e compreensão dos sinais que o Mestre realiza. Ver, ouvir, discernir os sinais que suscitam o crer, que suscitam vida nova.
Aos pés da cruz Maria está presente com seu Filho. A fidelidade ao Pai levou Jesus a assumir a morte na cruz. A fidelidade ao caminho do filho levou Maria a assumir o seu destino. As fidelidades ao Pai e ao Filho lhe pedem nesta hora de entregar o Filho, lhe pedem de acolher outro filho. É a herança que Jesus lhe deixa: “Mulher, eis aí teu Filho”.
Aos pés da cruz a Mãe de Jesus, com outras mulheres. Aos pés da cruz, dor, solidariedade, cumplicidade fazem nascer a Igreja no cuidado de uma mulher, no testemunho de mulheres. Igreja, comunidade dos discípulos e das discípulas amadas que testemunha que o amor é circular.

Maria Mãe

Maria discípula
Maria testemunha
Maria aberta à vida
Maria seguindo os passos do Filho
Maria coração aberto que acolhe e derrama amor

Maria ensina-nos a ser contigo mãe, discípula, testemunha do teu Filho Jesus.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

MISTÉRIO ENCARNAÇÃO - MISTÉRIO DE CORPOS EM MOVIMENTO

Por Tea Frigerio

Natal nos coloca no âmago do mistério da Encarnação.
A Divindade que se torna Humanidade.
Humanidade-Criança.
Este o Mistério!
Este o Natal
Esta a Realidade!


Mistério é linguagem. Linguagem que fala, podemos ouvir e ler.
Então vamos ouvir e ler.
Primeiro, porem vamos ser humanas, ser corpo, nos olhar, nos ouvir, nos cheirar, nos tocar...
Encarnação: a Palavra se faz carne!
Encarnação é assumir uma carne, assumir um corpo.
Fala de corpos que se gostam no amor se unem, se curtem dois numa carne só, e a vida acontece. Um corpo fica grávido, gestante, dá à luz. Criança, nova vida.
É movimento, encontro, acolhida, dar espaço, conviver, criar laços, deixar partir, não mais uma carne só, duas carnes, duas vidas.
Movimento de três corpos: homem-mulher-criança.
Natal é movimento. Movimento profundamente Divino-Humano. Movimento-caminho para-nos encontrar, para se colocar a caminho conosco.
Corpo divino-humano em movimento.
Corpos que se movimentam.
Zacarias o insucesso o deixou mudo. Volta, caminha para casa, caminha para Isabel. Outro caminhar, um encontro amoroso diferente. A que era estéril se torna fecunda. Uma criança em seu ventre, a  palavra na sua boca. Dá nome ao filho. Movimento que restitui a palavra ao esposo Zacarias.
Isabel e Zacarias, caminho que levou à circularidade.
Mulheres grávidas em movimento. Encontro de idades, Maria, Isabel, conversa, segredos, cumplicidade, ousadia, rebeldia, sororidade, e no ventre movimento, os filhos pulam de alegria anunciado o novo.
Novidade é perigosa!
O poder quer ser dono do caminho, do movimento, quer contar, quer controlar, quer tributar.
José, Maria, burrinho, lá vão, em caminho, em movimento a profecia a cumprir, Belém, a casa do pão, manjedoura não de pão, berço da criança-deus.
Luminosidade, anjos e anjas, estrelas, movimentos brilhosos convidam a se movimentar, a caminhar, seguir o pulsar das estrelas, das vozes que convidam:
Num casebre, uma mulher, com seu esposo, um recém-nascido precisando de tudo.
O recém-nascido abandonou tudo para vir ao nosso encontro, para nos encontrar, precisa de nós... Então vamos!   Então foram!
Então vamos...
... Como foram os Sábios caminhando com a estrela, aventurando, arriscando, desencontrando e encontrando.
... Peregrinado como peregrinou Simeão, que ao ver os três no Templo, os corpos fazendo o rito, reconheceu, este movimento não é do templo é da Casa, da manjedoura. Encontrei, meu peregrinar findou.
... Como Ana, profetiza de quem não ouvimos a voz. Se profeta é sem dúvida se movimentou, caminhou e anunciou: esta é a Boa Nova: Deus é Criança, Criança é Deus.
Deus-Criança, que mistério é este?
Deus deve ser forte, onipotente, todo-poderoso.
Criança é Deus, que mistério é este?
Criança é fragilidade, dependência, necessidade, pequenez, abandono, entrega, confiança.
Natal é tudo isso!
Deus é Criança, Criança é Deus movimento para nos encontrar.
Criança é Deus, Deus é Criança que se abandonou em confiança radical no ventre, nos braços, nos seios de Maria; confiança radical em José, ele cuidaria de tudo!
Confiança radical na humanidade, em nós!
Natal, Mistério, linguagem , escutamos , vemos?

O que esperamos a nos colocar em movimento, a caminho!

sábado, 7 de dezembro de 2013

ILUMINAÇÃO DO ADVENTO – Parte III - Maria a mãe.

 Por Tea Frigerio

Maria, a mãe nos recorda que sem gravidez não ha nascimento! Advento, Natal tempos litúrgicos à sombra de gravidez, de nascimentos.
Os evangelhos da infância de Mateus e Lucas são paginas de mulheres e crianças. É a grande novidade: nas pequenas coisas, nos pequenos há o mistério da Boa Noticia.
Mulher e criança são o cotidiano, nos relembram uma realidade ausente da economia, da política, da religião: cueiros pra lavar, papas para preparar, joelhos machucados... a cotidianidade monótona, mas é ai que é presente o mistério que nos faz borbulhar de alegria (Lc 1,39-56).
Entrar na casa, saudar, abraçar. Duas mulheres se encontram: uma anciã outra jovem. A mesma experiência: esperam um filho em situação incomum. A anciã talvez precise de ajuda na casa a causa de sua gravidez de risco. A jovem de ser acolhida, de conselhos, pois espera um filho e não é casada, teve que sair às pressas de sua aldeia. O encontro não precisa de palavras para expressar, as duvidas, temores, angústia, medo, espera, esperança. A anciã acolhe, a jovem serve. Na casa o cotidiano da vida, o inesperado da vida. É na cotidianidade da vida, que acontece o novo.
Bendita mãe, bendito filho. Bendizer, bem-dizer, dizer-o-bem. Advento, se colocar a caminho para bem-dizer para as pessoas, para sociedade, para o universo.
Maria è bendita porque carrega o fruto bendito: dirá e fará o bem em sua vida. Dizer-o-bem da vida é dar à vida um sentido novo, novo rumo.  Às vezes dizemos que vivemos um tempo maldito, in um mundo maldito. Mal-dizer é dizer e fazer o mal. Uma vida que somente tem a dizer o mal, perdeu o sentido, o rumo, a direção… Maria carrega o fruto bendito porque Jesus reorienta a vida, lhes dá um novo sentido, uma nova direção.
Bendita, , bendito: a boa noticia é presente na mulher, na criança. A mulher oferece seu ventre para engravidar a vida, o cumprimento das promessas, a novidade de vida.
Bendita a casa que se faz ventre e engravida a novidade da vida. Bendita aquela que acreditou! Benditas, benditos aqueles e aquelas que acreditam que o impossível é possível!
Maria è bem-aventurada porque acreditou. Crer é diferente de ter fé. Fé fala de ideias, doutrinas, dogmas. Crer é um verbo é um agir. Crer que as mudanças estão acontecendo no cotidiano, na escolha dos estilos de vida que podem transformar esta vida maldita em via bendita.
Frente à realidade nos sentimos imponente. Sentimo-nos pequenas, inúteis, assim como Maria e Isabel deviam se sentir. Acreditaram que, delas mulheres a quem a sociedade não dava valor, em seus filhos ainda para nascer que as promessas do Senhor teriam se cumprido. Tiveram olhos para reconhecer na banalidade e monotonia cotidiana, em sua situação inusitada, nos seus pequenos gestos de mulheres a presença do Senhor que transformava sua vida, a vida do seu povo, a historia.

Na companhia destas três personagens (profeta Isaías, precursor João Batista, Maria a mãe), vamos viver o tempo de advento, mas vamos vive-lo também através de um sinal a Coroa do Advento, tradição nascida no norte da Europa e que hoje se difundiu em outras partes do mundo. Ela é formada por um circulo de galhos do pinheiro, decorado com fitas vermelhas e símbolos natalinos onde estão inseridas quatro velas.


Cada símbolo nos fala:

O circulo fala da circularidade da vida, do universo, da história, das relações na comunidade.
O verde recorda o renovar-se constante da vida
As fitas vermelhas o amor e a disponibilidade a recriar as relações humanas
As velas, a luz, Jesus luz que ilumina a realidade humana.